quinta-feira, 5 de julho de 2012

AMAR



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Drummond)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A arte de produzir fome - texto de Rubem Alves




Adélia Prado me ensina pedagogia. Diz ela: "Não quero faca nem queijo; quero é fome". O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo...

Sugeri, faz muitos anos, que, para se entrar numa escola, alunos e professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros bem que podem dar lições aos professores. Foi na cozinha que a Babette e a Tita realizaram suas feitiçarias... Se vocês, por acaso, ainda não as conhecem, tratem de conhecê-las: a Babette, no filme "A Festa de Babette", e a Tita, em "Como Água para Chocolate". Babette e Tita, feiticeiras, sabiam que os banquetes não começam com a comida que se serve. Eles se iniciam com a fome. A verdadeira cozinheira é aquela que sabe a arte de produzir fome...

Quando vivi nos Estados Unidos, minha família e eu visitávamos, vez por outra, uma parenta distante, nascida na Alemanha. Seus hábitos germânicos eram rígidos e implacáveis.

Não admitia que uma criança se recusasse a comer a comida que era servida. Meus dois filhos, meninos, movidos pelo medo, comiam em silêncio. Mas eu me lembro de uma vez em que, voltando para casa, foi preciso parar o carro para que vomitassem. Sem fome, o corpo se recusa a comer. Forçado, ele vomita.

Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim "affetare", quer dizer "ir atrás". É o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.

Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde morava, havia uma casa com um pomar enorme que eu devorava com os olhos, olhando sobre o muro. Pois aconteceu que uma árvore cujos galhos chegavam a dois metros do muro se cobriu de frutinhas que eu não conhecia.

Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A simples visão daquelas frutinhas vermelhas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las.

E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar. Anote isso: o pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo.

Se eu não tivesse visto e desejado as ditas frutinhas, minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine se a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes sobre o muro, com dó de mim, tivesse me dado um punhado das ditas frutinhas, as pitangas. Nesse caso, também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho, sem que eu tivesse tido necessidade de pensar. Anote isso também: se o desejo for satisfeito, a máquina de pensar não pensa. Assim, realizando-se o desejo, o pensamento não acontece. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivesse havido perguntas.

Provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar me fez uma primeira sugestão, criminosa. "Pule o muro à noite e roube as pitangas." Furto, fruto, tão próximos... Sim, de fato era uma solução racional. O furto me levaria ao fruto desejado. Mas havia um senão: o medo. E se eu fosse pilhado no momento do meu furto? Assim, rejeitei o pensamento criminoso, pelo seu perigo.

Mas o desejo continuou e minha máquina de pensar tratou de encontrar outra solução: "Construa uma maquineta de roubar pitangas". McLuhan nos ensinou que todos os meios técnicos são extensões do corpo. Bicicletas são extensões das pernas, óculos são extensões dos olhos, facas são extensões das unhas.

Uma maquineta de roubar pitangas teria de ser uma extensão do braço. Um braço comprido, com cerca de dois metros. Peguei um pedaço de bambu. Mas um braço comprido de bambu, sem uma mão, seria inútil: as pitangas cairiam.

Achei uma lata de massa de tomates vazia. Amarrei-a com um arame na ponta do bambu. E lhe fiz um dente, que funcionasse como um dedo que segura a fruta. Feita a minha máquina, apanhei todas as pitangas que quis e satisfiz meu desejo. Anote isso também: conhecimentos são extensões do corpo para a realização do desejo.

Imagine agora se eu, mudando-me para um apartamento no Rio de Janeiro, tivesse a idéia de ensinar ao menino meu vizinho a arte de fabricar maquinetas de roubar pitangas. Ele me olharia com desinteresse e pensaria que eu estava louco. No prédio, não havia pitangas para serem roubadas. A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. E anote isso também: conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia. Homem sem fome: o fogão nunca será aceso. O banquete nunca será servido.

Dizia Miguel de Unamuno: "Saber por saber: isso é inumano..." A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar faca e queijo ao aluno, provocar a fome... Se ele tiver fome, mesmo que não haja queijo, ele acabará por fazer uma maquineta de roubá-los. Toda tese acadêmica deveria ser isso: uma maquineta de roubar o objeto que se deseja...


Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor da Unicamp.





terça-feira, 3 de julho de 2012

O doce, as abelhas e os problemas metabólicos


Cientistas da Universidade do Estado do Arizona descobriram que as abelhas podem nos ensinar a respeito de conexões básicas entre a percepção dos gostos e problemas metabólicos em humanos.

Fazendo experimentos com a genética das abelhas, os pesquisadores identificaram conexões entre a sensibilidade ao açúcar, a fisiologia do diabetes e o metabolismo dos carboidratos. Abelhas e seres humanos podem compartilhar parcialmente essas conexões.
Os pesquisadores explicam como, pela primeira vez, conseguiram tornar inativos dois genes no módulo de regulação de comportamentos relacionados à comida, na abelha. Fazendo isto, eles descobriram um possível link molecular entre a percepção do sabor doce e o estado de energia interna.
A sensibilidade da abelha ao açúcar revela sua atitude em relação à comida, a idade dela quando começou a procurar néctar e pólen e o tipo de comida que prefere coletar. Ao suprimir esses dois genes, as abelhas tornaram-se mais sensíveis ao gosto doce. Interessantemente, estas abelhas também tinham os níveis de açúcar no sangue bastante elevados, e baixos níveis de insulina, semelhante às pessoas que têm Diabetes tipo 1.
Os pesquisadores estão tentando compreender exatamente como se aumentou a percepção ao gosto doce, com o experimento. O tecido mais ativo metabolicamente na abelha pode dar a resposta. Esse tecido é semelhante ao fígado e à gordura abdominal em humanos, já que ajuda no armazenamento de nutrientes e na criação de energia.
A percepção do gosto evoluiu como um mecanismo de sobrevivência, tanto para as abelhas quanto para os seres humanos. Por exemplo, comidas amargas podem conter veneno, ou o gosto doce pode significar que a comida é rica em calorias. Em todos os animais, a percepção dos gostos deve comunicar-se adequadamente com o estado energético interno para controlar a ingestão de alimentos e manter as funções vitais normais. Sem isso, uma percepção pobre de gostos pode contribuir para comportamentos alimentares não saudáveis e problemas metabólicos, como diabetes e obesidade.

sábado, 30 de junho de 2012

Meditemos


Zen é vida. Portanto, comer é indispensável para o Zen. No que se refere ao ato de comer, devemos considerar três elementos: os ingredientes, o modo de fazer e a pessoa que come.

Nas receitas, no entanto, as medidas não são precisamente determinadas. O fundamental para quem vai cozinhar é a liberdade de criar e se expressar na execução de cada prato. A harmonia entre os sabores é algo que o cozinheiro deve buscar, liberto de receitas com valores exatos.

Se os seis sabores (amargo, azedo, doce, quente, salgado e suave) não estiverem em harmonia e à comida faltarem as três virtudes (suavidade, limpeza e formalidade), então a oferenda do Tenzo (monge cozinheiro) à congregação não estará completa.

Se o Sodô, o templo da meditação, é considerado essencial para a vida monástica, a cozinha é tida no mesmo nível de importância e também é considerada um templo, o Tenzoryo. Se no primeiro, alimenta-se a mente, no segundo alimenta-se o corpo. Para os budistas, um não existe sem o outro.

As refeições são realizadas sempre em silêncio. O trato com o Oryoki (conjunto de tigelas) segue um código sofisticado, que chama a atenção do praticante para aquilo que está fazendo no momento. Os monges budistas seguem uma seqüência ritualizada de procedimentos, com atenção voltada a cada detalhe. Cada um deles leva consigo seu próprio conjunto de utensílios, embrulhado em uma trouxinha de pano. São feitas preces e reverências antes, durante e ao término da refeição, quando as tigelas e talheres – que foram delicadamente lavados à mesa – voltam a ser envolvidos na toalhinha de pano.

Os gestos precisos e detalhes harmoniosamente coreografados exigem atenção máxima. Alimenta-se usando todos os sentidos, degustando a variedade de sabores, temperaturas, a fragrância que exala do prato, o movimento da mastigação.

Oryoki (do japonês ooryooky) significa “tigela”, mais precisamente, uma tigela do tamanho do estômago. A relação entre tigela e estômago já transmite a idéia de equilíbrio, de se alimentar do necessário e na quantidade que o corpo precisa – nem mais, nem menos.

Monja Coen ressalta que “o oryoki é uma prática meditativa na medida em que estou comendo com plena atenção. Estou em silêncio, sentindo a fragrância e o sabor dos alimentos. Percebi a rede de interdependência de todas as formas de vida”.

Todos os procedimentos são realizados com as duas mãos. Não se pega uma tigelinha com uma das mãos, enquanto a outra manuseia os hashis, por exemplo. O foco tem de estar totalmente voltado para o que se está fazendo, o que naturalmente demanda mais atenção. “Isso tudo é treino de meditação”, diz a monja. Por mais complexa que pareça, a prática do oryoki traz um benefício simples: o reencontro com a paz no momento da refeição. A idéia é deixar tudo o que não for inerente à alimentação bem longe da mesa.
(Fontes: www.mosteirozen.com.br; Revista Meditação)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Grelina, Estresse e Depressão





Mais um estudo que relaciona o estresse ao aumento da ingestão alimentar!

Parece que a grelina, conhecida como o "hormônio da fome", não é secretada apenas quando os estoques de energia do corpo estão baixos. Sua liberação também ocorre em resposta a estímulos estressores.

Faz sentido, já que geralmente situações de estresse exigem que o organismo gaste mais energia. O estresse crônico leva, então, a níveis cronicamente elevados desse hormônio, juntamente com um aumento do apetite e ganho de peso.

Viu-se, porém, que quando os receptores de grelina são bloqueados farmacologicamente, os indivíduos ficam mais suscetíveis a comportamentos depressivos em face a situações de estresse. Ou seja, embora a secreção de grelina em resposta ao estresse possa levar ao aumento da fome e ao comer em excesso, organismos que não obtêm tal resposta podem ser mais propensos a desenvolver sintomas de depressão quando estressados.

Interessante!






quinta-feira, 28 de junho de 2012

Probleminhas...

Alguns problemas comuns que dificultam muito a perda de peso nos passam despercebidos.

Pular refeições é um deles.

Por exemplo, há um padrão bastante frequente, que é a pessoa que pula o café da manhã, não faz lanches entre as refeições, come salada ou muito pouco no almoço... aí come mais no jantar e tem muita dificuldade em manter o controle alimentar à noite. Dá para entender a sensação que essa pessoa tem de que está comendo muito pouco, já que passa a maior parte do dia comendo muito pouco mesmo. Mas o problema é que, quando vai comer à noite, está com fome. E quando estamos com fome, o nosso corpo está ansiando por calorias! O que acontece? Por um lado, é verdade que a pessoa do exemplo está comendo apenas uma refeição substancial por dia. Mas por causa da fome, ela está comendo mais calorias do que seu corpo gasta durante todo o dia e, portanto, ganhando peso. Moral da história: para perder peso não se pode ficar com fome. Comer a cada 3 horas e incluir proteínas em cada refeição e lanche é uma forma de lidar com isso.

Comer fora de casa é outro problema para o emagrecimento.

As pessoas muitas vezes têm a impressão de que estão comendo de forma saudável, que fazem boas escolhas quando em restaurantes. Infelizmente, mesmo opções mais saudáveis em restaurantes são geralmente mais calóricas do que imaginamos. Se a pessoa come fora várias vezes por semana, aí está uma forte razão para não emagrecer ou até para engordar. Talvez um meio termo seja comer fora apenas em ocasiões especiais, comemorações... e tentar se planejar para comer comida feita em casa no dia-a-dia. E, é claro, continuar a fazer escolhas mais saudáveis quando for comer fora.

As calorias que bebemos são também uma questão séria e um frequente fator de engorda.

Suponha que a pessoa coma de forma correta, respeitando as porções e os intervalos entre as refeições, mas beba coisas calóricas: leite integral, suco adoçado, vinho... todos os dias. Em um ano, as calorias bebidas fazem grande diferença no peso! E a pessoa nem percebeu sua ingestão! Mesmo que sejam bebidas saudáveis, são uma faca de dois gumes, e devem ser controladas.

(baseado em post do blog Weighty Matters)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Terapia Cognitivo-Comportamental e perda de peso


Muitas e muitas vezes ouvi, no consultório: "se eu sei o que fazer, por que não sigo as recomendações?“. O fato de sabermos o quê e quanto comer é fundamental, mas não suficiente para que se tenha sucesso no emagrecimento. 
A verdade é que não basta saber, e não basta querer. O comportamento alimentar é muito complexo, com diversos determinantes, nem sempre claros para nós.
Segundo a Terapia Cognitivo-Comportamental, para que a perda de peso seja possível e, mais ainda, a sua manutenção, o autoconhecimento e uma maior clareza dos próprios comportamentos e motivações relacionados ao comer e ao corpo são o primeiro passo. São, então, necessárias diversas modificações comportamentais e cognitivas (de pensamento, crenças, imagens mentais), conseguidas num clima de trabalho conjunto e colaborativo.
A Terapia Cognitivo-Comportamental é hoje considerada um tratamento de primeira linha para o excesso de peso. É uma intervenção objetiva, orientada por metas e prioritariamente voltada para o presente e para o futuro. Tem como objetivo implementar estratégias que auxiliam no controle e na manutenção do peso perdido, baseando-se na análise e na modificação de comportamentos e pensamentos disfuncionais associados ao estilo de vida do paciente.
Visando uma maior autonomia e autocontrole, trabalha-se em direção a mudanças no ambiente, mudanças de hábitos, de estilo de vida, de atividade física. Também se busca as mudanças de pensamentos e crenças em relação aos alimentos, ao corpo, a si mesmo, e uma maior compreensão dos sentimentos e da forma como estes influenciam o comer. Utilizam-se técnicas de controle de estresse e técnicas para melhorar as noites de sono.
Quando em grupo, a Terapia Cognitivo-Comportamental tem o benefício de um ambiente de apoio e cumplicidade, de troca de experiências, de identificação. Eu, particularmente, gosto muito de trabalhar assim.
 Que tal? Animou-se?